Conteúdo do impresso Edição 1385

Eleições 2026

Fim da era Calheiros obriga grupo a se reinventar

Derrota força patriarca a repensar o futuro do clã para sobreviver politicamente
Cortesia
Renan Calheiros durante votação em Maceió
Renan Calheiros durante votação em Maceió

A derrota de Renan Calheiros (MDB) para o Senado na eleição estadual de 2026 representa um dos ciclos mais longos de influência da família Calheiros na Casa, o resultado encerra um dos ciclos mais longos e influentes da política alagoana e obriga a família Calheiros a pensar, talvez pela primeira vez em quatro décadas, em uma reorganização a partir de uma posição menos confortável.

Uma possibilidade ainda distante, mas que já pode entrar no horizonte político, passa por Murici. Sem mandato a partir de fevereiro de 2027, Renan poderia, se considerar conveniente, permanecer nas urnas, disputar a Prefeitura de sua principal reduto em 2028. Não há movimento público nesse sentido e o cenário hoje é apenas uma hipótese, inclusive porque Remi Calheiros Filho, atual prefeito, poderia buscar a reeleição. Mas Murici permanece como o lugar onde o sobrenome Calheiros ainda conserva força suficiente para servir de ponto de partida para uma reorganização.

O tamanho da mudança ficou evidente no primeiro turno. Renan perdeu a vaga no Senado enquanto Renan Filho fracassou na tentativa de retornar ao governo. Pela primeira vez desde 2015, o núcleo da família deixaria de controlar o Executivo estadual e, simultaneamente, Renan pai estaria fora do Congresso Nacional.

O resultado é ainda mais significativo porque Renan Filho iniciou a campanha com apoio declarado da grande maioria dos prefeitos de Alagoas. A aliança garantiu vitória em dezenas de municípios, mas não impediu derrotas importantes nem a redução da vantagem em cidades onde o grupo historicamente obtinha votações muito superiores.

Em Arapiraca, por exemplo, Renan Filho havia ultrapassado 80% dos votos em 2018 e agora perdeu por pequena margem. Em Rio Largo, Atalaia, Girau do Ponciano e São Miguel dos Campos, cidades onde o emedebismo também havia conseguido votações expressivas no passado, o tucano JHC saiu vencedor. O quadro mostrou que a declaração de apoio de prefeitos continua relevante, mas já não garante transferência automática de votos.

Arthur Lira foi um dos principais personagens desse processo de desgaste. Sem que seja necessário medir diretamente o tamanho político dos dois grupos, a atuação do ex-presidente da Câmara ajudou a romper antigas fronteiras entre situações políticas. Prefeitos e lideranças historicamente próximos do MDB passaram a manter alianças cruzadas e, em alguns casos, dividir espaços entre candidatos de campos adversários.

A consequência tende a aparecer com mais clareza a partir de 2027. Prefeitos que estavam com Renan Filho precisarão se relacionar com um governo comandado por JHC para tratar de obras, convênios e investimentos. Parte dessa estrutura poderá continuar ligada ao MDB, mas a ausência do Palácio torna mais difícil conservar a mesma unidade política construída nos últimos anos.

O partido, porém, não saiu destruído das urnas. O MDB elegeu 15 dos 27 deputados estaduais e continuará com a maior bancada da Assembleia Legislativa. Isso coloca Marcelo Victor, reeleito deputado e um dos principais articuladores da campanha de Renan Filho, numa posição ainda mais relevante.

Sem um governador do MDB para organizar a base, Marcelo Victor passa a controlar uma das principais estruturas de poder que restaram ao grupo. A relação entre ele, os deputados eleitos e os Calheiros será decisiva para saber até onde essa bancada permanecerá unida diante do novo governo.

Renan Filho também continuará no Senado até 2031 e segue como o nome eleitoralmente mais forte da família. Em 2026, porém, deixou escapar outro marco: ao perder a disputa para governador, não conseguiu igualar Divaldo Suruagy como único político a governar Alagoas por três mandatos.

Murici, mesmo com algum desgaste, continua sendo a principal fortaleza. Renan Filho venceu com ampla vantagem no município e Renan Calheiros também liderou a votação para o Senado na cidade.

Do lado derrotado, a base emedebista ficou fragmentada com o resultado e a condição de sigilo, e no resumo de suas palavras, é cedo para falar em aposentadoria política ou desaparecimento dos Calheiros pois o grupo ainda conserva prefeitos, deputados e um senador e o que terminou em 2026 foi a era em que a família conseguia reunir, ao mesmo tempo, governo, Senado e uma extensa rede de alianças municipais. “O problema a ser resolvido agora não é ampliar a influência, mas sim reconstruí-la”, afirmam.


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